O racionalismo moderno se origina basicamente da razão cartesiana que pressupõe a divisibilidade infinita do objeto e, principalmente, a independência total em relação do observador ao objeto observado. Ou seja, nosso sistema de pensamento e o discurso científico são legitimados a partir do momento que objetifica a natureza, impondo a separação
A divisão radical entre sujeito e objeto é a base de todo conhecimento científico. Essa dicotomia homem/natureza é onde se encontra o ponto essencial da nossa crise ecológica. Esse processo de objetificação da natureza (onde a entendemos apenas como um valor utilitário) é ao mesmo tempo o seu dominío e o seu afastamento. Uma vez que ‘’perdemos as raízes’’, não nos achamos mais como parte indissociável da natureza. Desaprendemos a compreender a natureza de forma intuitiva e já não sabemos da sua importância fundamental nem como cuida-la e preserva-la como se fosse nosso próprio corpo.
Com o Renascimento europeu (período entre fins do séc. XIII e meados do séc. XVII) a lógica cartesiana de domínio da natureza se funde com o cristianismo e estabelecem a ética antropocêntrica em oposição ao teocentrismo do período medieval. O conjunto de valores antropocêntricos dá aos humanos um status privilegido sobre outras formas de vida e é uma das mensagens centrais que os estudantes encontram hoje em dia nas escolas. Porém esse modelo de pensamento cada vez mais vem mostrando suas falhas a respeito do problema ecológico planetário e se tornando menos adequado ao tempo de transformações a qual estamos passando.
No século XIX a educação obrigatória surge como forma de garantir a ordem social, era preciso educar as massas com um currículo remodelado tendo em vista as necessidades impostas pelo processo de industrialização e comércio nos centros urbanos. Esse ‘’novo mundo’’ exigia um currículo onde tinha espaço assegurado as ciências, com a separação clara do Estado da Igreja. Os três elementos principais do currículo racional e que boa parte ainda contínua em voga são: o pragmatismo, o individualismo e o racionalismo. O pragmatismo se fundamenta em éticas utilitárias que consideram a natureza apenas quanto ao seu valor de uso. O individualismo e o racionalismo ambos presupõe um razão autônoma do indivíduo em relação á natureza, dessa forma também são objetificadores.
O programa estabelecido pela mecânica newtoniana estabelece uma visão de mundo em que o mecanicismo passa a ser a única forma legítima de se fazer ciência, não é mais uma nova teoria mas a própria visão do que é a realidade e passa a ser a única forma possível de se entender a realidade. Neste período (séc. XIX) todo um corpo de saberes ecologicamente sustentáveis é deixado de lado no currículo escolar por não ser científico, por não ser mecanicista.
O programa newtoniano é celebrado e recebido como portador de uma nova visão de mundo. A possibilidade de uma descrição metemática da natureza encanta o mundo intelectual europeu. Mas não podemos deixar de falar sobre as reações produzidas contra essa lógica totalitária na ciência, nesse mesmo período. A filosofia de Schelling, por exemplo, abordava o problema do mecanicismo e a ele se opunha, criticando a impossibilidade de pensar o orgânico dentro da natureza. Suas ideias foram abolidas da ciência para que o programa newtoniano reinasse soberano.
Todo o sistema de pensamento que não pertencesse ao mecanicismo e às suas regras não se enquadravam é considerado não científico. Sem a autorga científica esses saberes são desacreditados, sem valor e acabam no esquecimento. A palavra ciência para a maioria das pessoas (menos para os cientistas) qualifica algo como realmente verdadeiro e sem possibilidades de erros. Dessa forma ciência e sabedoria precisaram ser separadas. Muitos saberes ecologicamente sustentáveis foram expulsos da ciência para que o mecanicismo pudesse se afirmar sem contradições.
Referência: Ética e Educação Ambiental - Mauro Griin
